
Eu, o detetive Antonio Iglesias, investigava o desaparecimento da jovem herdeira do multimilionário Kaylee Jenner. O caso parecia estranho desde o início: um grupo de alpinistas voltou da expedição, mas ela não. Pelas informações disponíveis, sabia-se que a mulher, um ano antes de seu desaparecimento, havia recebido uma herança: imóveis e quantias significativas, inclusive em carteiras de criptomoedas.
Nos relatórios da polícia, tudo parecia um acidente comum nas montanhas. Mas minha intuição me dizia: algo aqui não está certo.
Lembro-me bem daquele dia em que, pela primeira vez, apareceu uma anotação no meu caderno: “Possível motivo – herança. Verificar se há uma ligação entre a criptomoeda e essa viagem, que não pode ser chamada de outra forma senão ‘alpine divorce’”.
À noite, navegando pelo feed do TikTok, me deparei com um vídeo em que discutiam um termo assustador – alpine divorce, que se traduz literalmente como “divórcio alpino”. As pessoas escreviam que esse termo se refere a quando um parceiro leva deliberadamente alguém a um ambiente perigoso e o deixa sem ajuda. E não precisa ser necessariamente uma viagem radical às montanhas ou um mergulho. Procurei por outras postagens semelhantes no X e no Instagram. Lá, a discussão era ainda mais acalorada.
No dia seguinte, encontrei uma referência literária antiga. Em 1893, o escritor britânico Robert Barr escreveu o conto “An Alpine Divorce”. A história é sobre um homem que leva a esposa aos Alpes suíços para jogá-la de um penhasco e fazer com que pareça um acidente. Pensei: já se passaram mais de cem anos, mas a ideia, ao que parece, não desapareceu e continua em alta.
O “divórcio alpino” moderno parece bem mais simples. Basta deixar a pessoa sozinha nas montanhas, debaixo d’água, na selva ou no deserto. Decidi testar minha hipótese e percorrer todo o trajeto daquele grupo de alpinistas. Uma semana de buscas, vento frio no rosto e passagens intermináveis. Às vezes, parecia-me que o caso já estava perdido e que ninguém jamais saberia a verdade. Mas eu teimosamente comparava as coordenadas com o mapa e as anotações.
No oitavo dia da minha viagem, vi uma cabana de pastor velha e semidestruída. Uma fumaça densa se espalhava sobre o telhado, e a porta estava entreaberta. Quando entrei, ouvi uma voz feminina fraca vinda da escuridão. No canto, estava sentada Kylie Jenner. Ela parecia exausta, mas estava viva. Quando lhe dei água da garrafa térmica, ela disse baixinho que a haviam deixado propositalmente nas montanhas após uma briga por causa da herança.
Naquela noite, quando o helicóptero de resgate nos evacuou para o hospital, pensei comigo mesmo: às vezes, mesmo as histórias mais cruéis relacionadas à divisão de bens entre herdeiros podem ter um final feliz.