
Após a morte da sua esposa, Abram Mindichstein não mergulhou no luto tão profundamente quanto os seus conhecidos esperavam. Ele sentia-se solitário e triste. Especialmente nas longas noites de inverno. Nas noites solitárias de sábado, ele chorava no travesseiro, lembrando-se das festas de swing, onde ele e Sarah sempre se sentiam jovens e perigosamente bonitos.
Apenas um mês se passou e, de repente, ele encontrou uma nova forma de diversão: mergulhou no mineração de criptomoedas. Só mais tarde, em festas, na companhia de casais jovens que gostavam de risco tanto quanto ele, é que começou a fazer experiências com a consciência.
O impulso veio de Dolores, a enfermeira da falecida Sara: jovem, brilhante, confiante, com uma liberdade europeia no olhar. Ela veio da Holanda para o funeral e ficou um pouco mais do que planeava. Ao ver como Abram estava abatido, Dolores decidiu «trazê-lo de volta à vida».
A noite começou com vinho, continuou com conversas e... cogumelos. Microdosagem, como ela mesma. Para clareza de pensamentos, para energia, para vontade de viver. Abram, a quem ela chamava de brincadeira de «meu avô», descobriu o cogumelo cardo e o cordyceps — cogumelos que lhe devolveram a clareza mental, a concentração, a potência e uma resistência inesperada.
Dolores falava sobre isso como uma herança das culturas antigas. Os índios da Mesoamérica usavam cogumelos psilocibinos para rituais de conhecimento e tomada de decisões, os xamãs siberianos ofereciam cogumelos venenosos para entrar em estados alterados de consciência. Na Europa, desde os tempos antigos, os cogumelos medicinais — chaga, reishi, euphrasia — eram apreciados pela clareza mental e longevidade, enquanto na África os xamãs usavam plantas e cogumelos psicoativos naturais em rituais de iniciação e restauração de força. Cada cultura antiga tinha o seu objetivo, e cada cogumelo tinha o seu papel.
Entre as aulas de economia e noções básicas de investimento, ele negociava criptomoedas. E, uma vez a cada duas semanas, sentava-se ao volante do seu Mercedes preto e dirigia-se para a sua cabana de caça nos arredores da cidade. Lá, sob a luz suave e o aroma leve da floresta, ele permitia-se mais do que permitia com Sara.
Os casais jovens raramente mudavam. As regras eram simples: sem nomes, sem perguntas. Apenas toques, tensão e transações silenciosas.
Como a investigação descobriu mais tarde, Abram pagava pelos cogumelos e pela intimidade exclusivamente com criptomoeda. Ela não deixava vestígios.
O que aconteceu com o velho lascivo a história não revela, mas testemunhas afirmam que por trás de cada festa perfeita e barulhenta há sempre alguém que pagou mais do que planeava.